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Alimento, o veneno nosso de cada dia

Alimentos são vendidos com aditivos para aumentar tempo de conservação e melhorar aspecto. São venenosos e alguns têm substâncias cancerígenas.


José Lutzenberger, 1978



Neste auge final e fatídico da Sociedade de de consumo, predominam cada vez mais tecnologias que nada mais têm a ver com progresso no verdadeiro sentido da palavra, no sentido do incremento da felicidade humana, da saúde pública, da harmonia, tanto natural como social. Há, isto sim, tecnologia que em geral faz exatamente o contrário — mal à humanidade, mas tem uma grande vantagem para aqueles que dela se servem: é a tecnologia que facilita o trabalho do industrial ou, melhor ainda, do detentor do capital.


Isto é verdade em todos os ramos, até no da alimentação. Os nossos alimentos estão quase todos, hoje, desnaturados e, ao mesmo tempo, contaminados.


O público, condicionado e manipulado por um imenso aparelho publicitário, vai querer aquilo que lhe é oferecido no interesse do industrial. Hoje, a maioria das pessoas prefere o açúcar refinado, o arroz polido, que, no entanto, são alimentos incompletos, que perderam o que de mais valioso tinham : a proporção certa entre carboidratos, proteínas, lipídios e glicídios, entre vitaminas, sais minerais, alcalóides, em alguns casos fermentos, e outros.


Nos campos também predominam tecnologias que interessam a grandes centros de poder, neste caso à indústria de maquinário pesado e à agroquímica, que conseguiu nestes últimos 20 anos transformar completamente os métodos agrícolas num sentido útil para ela própria, não para a produção de alimentos de alto valor biológico. Resultado: o desequilíbrio da biologia do campo. Eles são corrigidos, então, através de enxurradas de adubos sintéticos solúveis e chuvas de venenos — os chamados pesticidas — entre os quais inseticidas, herbicidas, fungicidas, bactericidas, nematicidas e outros.


Em outra etapa, existe todo um complexo de poluição nos alimentos, que merece o nome de poluição deliberada. Trata-se dos chamados aditivos.

São usados para facilitar o "beneficiamento", a manipulação, o armazenamentos e a apresentação dos alimentos nas estantes dos supermercados. Nos antigos armazéns, os alimentos tinham que ser apresentados sempre frescos ou, então, quando se tratava de conservas, muito bem feitas, em recipientes especiais — bem fechados a vácuo — como no caso de geléias e goiabadas. Hoje, se pretende manipular os alimentos em grande escala e da maneira mais fácil. Por exemplo, as geléias e marmeladas são apresentadas em pequenos recipientes de plástico, com tampa mal colocada e não impermeável, mas que se pretende durem talvez um ano na estande do supermercado.


Uma vez que um alimento natural não aguentaria tanto tempo sem se deteriorar, são acrescentados a eles toda uma série de produtos que se pode dividir em duas grandes categorias. Por um lado, substâncias consideradas conservantes ou condicionantes. De outro, substâncias de efeito cosmético. No primeiro grupo, temos bactericidas e fungicidas, denominados conservantes. Temos os antioxidantes, acidulantes e outros elementos. Servem para conservar o alimento em embalagens insuficientes, porém espalhafatosas e atraentes. No segundo, temos substâncias que são adicionadas apenas para dar ao produto um aspecto irreal de qualidade que não tem. Aí estão os corantes, os flavorizantes, aromatizantes e uma série de outros.


Além disso, as embalagens, especialmente os plásticos, quando não houver controle especial — e suspeito que em nosso País não há quase nenhum — podem apresentar uma série de substâncias perigosas, usadas para lhe dar mais Dureza ou elasticidade.


Grande parte delas são biocidas, isto é, veneno. A legislação obriga os fabricantes a indicar na embalagem pelo menos parte desses produtos. O que acontece é que as indicações são feitas em letras bem pequenas, à margem das etiquetas, local onde o consumidor não costuma ler.

Não contente, o industrial também não fornece o verdadeiro nome das substâncias, que aparecem em código para confundir mais o comprador. As vezes, ainda, se procura esconder ao máximo a indicação. Eu, por exemplo, durante tempos estive convencido de que a nossa cerveja não tinha aditivos. Um dia, examinando uma tampinha — a primeira coisa que se põe fora — bem no saiote em letras microscópicas, li os aditivos .


Há o enfoque tecnocrático de toda esta contaminação, postulando que ela não faz mal porque as quantidades aplicadas são insignificantes. De fato, o industrial pode dormir tranquilo, que não será processado por ninguém. As doses são pequenas para que apareçam imediatamente sinais muito aparentes para estabelecer a relação entre causa e efeito.


Parte-se do enfoque absurdo de que estas substâncias só são venenosas a partir de certa quantidade. Isto não é verdade para aquelas fundamentalmente biocidas, como a grande maioria dos atuais pesticidas, que já são concebidos como biocidas. O veneno vai se acumular no organismo e, ao fim de um certo número de meses ou décadas, atingirá uma concentração que causará danos irreversíveis. Mesmo que a substância não seja acumulativa, permanece o risco. É o caso dos inseticidas fosforados. Não permanece no organismo, mas o efeito pode ser altamente perigoso. Cada dose provocará um pequeno problema no sistema renal, por exemplo. Depois de certo tempo, vamos nos ressentir de graves danos ao sistema hepático e poderemos, também, sofrer outras consequências porque não teremos mais os organismos naturais de defesa, que deveríamos ter. O enfoque igualmente desconsidera o caso em que os venenos se reforçam. Digamos que o veneno A tenha o efeito 6 e o veneno B tenha o efeito 5. Eles podem não dar o resultado 11, mas se multiplicarem e dar 30, o que é muito pior.


Finalmente, há os efeitos cancerígenos, mutagênicos e teratogênicos, que têm a ver com o sistema genético do organismo. Sabemos que o câncer é desencadeado ao nível molecular. Basta uma molécula só de substância cancerígena ou mutagênica incidindo no lugar certo, no momento certo, para o começo do câncer. No caso dessas substâncias, não há a dose diária admissível. Ela tem que ser zero.

É necessário, portanto, que o público se conscientize dessa situação e proteste: lute contra essa imposição de que é vítima.

Publicado na Revista do Consumidor, Ano 1, Nº 1, Porto Alegre, NOV/DEZ 1978, p. 10. Transcrição do artigo que se encontra no APJL por Elenita Malta Pereira.

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