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A problemática ecológica

Se nós fôssemos realmente uma civilização materialista nós desejaríamos um mundo material racional, limpo, belo, harmonioso e sustentável e assim eu diria que nós não somos materialistas, nós somos sim “atracionistas”.


José Lutzenberger (1977)


Fonte: Jornal Opinião Jovem, 31/10/1977. Fonte: Reprodução do APJL.


Como é de conhecimento de todos, a humanidade encontra-se atualmente numa corrida suicida, portanto penso que não há necessidade de levantar detalhes sobre a crise ambiental atual. O problema da crise ambiental para ser de natureza técnica, porém se o fosse já estaria resolvido. Na verdade trata-se de um problema de civilização, nós estamos no fim de uma era civilizatória, especialmente sua última excrescência a sociedade de consumo, está chegando ao fim e os sintomas estão em toda parte, não havendo necessidade portanto de mencioná-los.


Para a compreensão da crise ecológica que hoje vivemos, precisamos levantar uma problemática de fundamental importância política para esta sociedade industrial, uma problemática no entanto paradoxalmente está ausente da discussão política, os grêmios políticos, os parlamentos, e os executivos não estão discutindo esta problemática, apesar dela ser de extrema importância política. Mas o paradoxo é apenas aparente.


Nós vivemos hoje o que eu chamaria, por falta de uma palavra mais consagrada, uma nova forma de feudalismo, o feudalismo tecnocrático que não respeita fronteiras e que se alastra pelo planeta, essa feudalismo moderno tem nomes, aparência e instrumentos diferentes do feudalismo antigo. Hoje os senhores feudais continuam e são os tecnocratas. E esse feudalismo tecnocrático conseguiu nos incutir a sua dogmática própria, toda a sua ideologia de sustentação e com uma diferença muito significativa das ideologias antigas, pois essas como a ideologia da igreja católica era uma ideologia aberta, explícita que não escondia nada, os dogmas eram conhecidos por todo mundo bastava abrir o catecismo ou a bíblia. A ideologia do feudalismo atual não é explícita ou seja não é aberta, mas esses dogmas estão em toda parte, eles são visíveis para aqueles que sabem analisar profundamente a estrutura socioeconômica.


A ideologia da qual falo nos é imposta sem discussão e sem ser apresentada abertamente. E infelizmente a grande maioria das pessoas não analisam profundamente e aceitam os paradigmas e as hipóteses de trabalho da sociedade, onde se vive sem discussão. Vou enumerar alguns dogmas desta ideologia que constituem a base de feudalismo tecnocrático.


1º) O que eu chamaria de desejabilidade irrestrita de tecnologia, isto é, quanto mais tecnologia melhor. A tecnologia não é contestada, ela é sempre considerada progresso. Exemplificando temos a política energética de nosso país, a orientação é para grandes complexos petro-carboquímicos, enormes hidroelétricas e ainda a energia nuclear, a tendência é para mais e mais tecnologia e quanto mais sofisticada melhor.


A contestação desse dogma fica restrita a uns pontos e pequenos grupos entre eles o dos ecólogos, especialmente dos ecólogos que são as consequências filosóficas da ecologia, assim este dogma está sendo contestado e estão surgindo as primeiras heresias desta religião do progresso.


2º) A tecnologia nos é apresentada como se ela não tivesse nenhuma conotação política, ética ou moral. E essa é a razão porque a tecnologia não está sendo discutida nos parlamentos, pois a tecnologia não é considerada que possa ter importância política sem questionamento a sociedade industrial vem se alastrando pelo planeta e está agora acabando com as últimas relíquias de culturas não industriais.


Nas culturas anteriores, usou-se tecnologias que eram compreendidas por quase todos. Por exemplo a mulher indígena que nunca manuseava um arco e flecha, por um problema de tabu, sabia seu funcionamento e isto ocorria com toda a tecnologia que a sociedade indígena usava, na cultura medieval quem é que não entendia o funcionamento do cata-vento, da roda d’água e assim por diante e o mais importante é que nestas culturas anteriores à nossa todo mundo entendia perfeitamente as armas de dominação dos poderosos mesmo quem nunca havia manejado uma forca sabia como esta funcionava. Mas hoje temos uma situação interessante, nós, que nos dizemos uma civilização industrial e tecnológica, na nossa grande maioria, não conhecemos esta tecnologia e quase com segurança que nem 5% das pessoas conhece o funcionamento de um instrumento que usam a todo instante como é o caso do automóvel e demais sistemas como a bomba de calor, geladeira, etc.


Na atual situação em que desconhecemos o que mais usamos ou seja, a tecnologia, não temos consequentemente condições de distinguir se a tecnologia nos está sendo benéfica para nossas reais necessidades ou se essa tecnologia está sendo colocada sobre nós como um instrumento de dominação. Por exemplo numa visita a uma usina nuclear, podemos ter até 2.000 engenheiros nucleares e se eu perguntar a cada um deles como funciona ele saberá me explicar apenas meio dúzia de equipamentos, mas do resto ele saberá tanto quanto eu. Não será isto um desastre cultural. Sendo que o maior problema é que a grande maioria não quer entender esta tecnologia. Ainda comentando sobre o desastre cultural, podemos observar que o grande problema encontra-se a nível educacional que a nível universitário tem se apresentado vários problemas atualmente sendo que as escolas universitárias apresentam um nível péssimo, pois limitam-se ao ensino de um mínimo conhecimento técnico que faz com que a pessoa tenha que aprender depois que terminou o curso universitário. Por tanto de centro de fermento intelectual, a universidade há muito tempo já perdeu esta função. Na Idade Média quem tinha oportunidade de estudar, discutia todo o acervo cultural daquela cultura e hoje o cidadão que vai à universidade quer saber apenas uma parte muito pequenas das ciências ou melhor como apertar certo botões de determinadas máquinas onde ele acha que melhor vai ganhar dinheiro e o resto não tem o menor interesse e o esquema quer que o técnico reaja desta maneira onde sobre um determinado assunto ele saiba muita coisa e fora daquilo seja um alienado, porque só assim ele vai ser uma ovelha mais dócil dentro do esquema e vai marchar direitinho para o matadouro quando for necessário. Aqui existe uma contradição muito interessante e de tremendo alcance político, mas não está sendo discutida em nossos grêmios político.


É claro, enquanto nós aceitarmos estes dois dogmas: o dogma da desejabilidade irrestrita da tecnologia e o dogma da neutralidade ética da tecnologia não se tem sentido discutir esse assunto politicamente, porque ele não tem alcance político dentro dessa dogmática. E se eu aceitar esses dogmas, então o corolário fundamental é de que a função mais básica, mais sagrada de todos os governos dos países que se dizem capitalistas, comunistas, socialistas e de todas as matizes existentes entre estes extremos, é criar condições para o pleno e desimpedido desenvolvimento da tecnologia e exatamente isto que vocês enxergam no quadro político atual, não só no Brasil como em toda a parte. Resumindo “o progresso sem freios” mais sofisticada a tecnologia melhor. Nosso governo por exemplo está muito faceiro com a construção de usinas nucleares, monstruosidade como Itaipu, nós no Rio Grande do Sul vamos ter um polo petroquímico vamos ter uma usina térmica para 10.000 megawatts e até polos proteicos já estão sendo construídos com monoculturas cada vez maiores e onde eu faço questão de mostrar que não há diferença entre capitalismo e comunismo, por exemplo na Romênia é onde existe as mais gigantescas monoculturas com campos de trigo chegando a 100.000 ha.


Agora nós vamos implantar o Programa do Álcool, baseado também em enormes monoculturas e depois centralizando a destruição do álcool, do mesmo tipo Petrobrás, algo como Álcoolbrás.


As usinas nucleares, pela nova dimensão de perigos que ela apresenta forçou muita gente a pensar. Todos vocês sabem que o programa nuclear alemão está praticamente liquidado e não será ampliado e faz oito anos que a tecnocracia a qual ele obedece, queria construir na Alemanha cerca de 40 usinas com um total de 30.000 megawatts, hoje estão com cinco ridículas estações funcionando, seis ou sete paralisados por pane técnico, sete paralisadas por sentença judicial e o resto, num total de vinte e sete em contrição ou planejadas. Isto porque o povo alemão começou a constatar da incrível periculosidade destas usinas e contestações no campo político conseguiram parar este tipo de loucura. Em alguns casos existem exemplos do poder individual, na Usina de Kalka [asterisco indicando “especificar o nome correto da palavra”] que ia ser a primeira usinar nuclear de segunda geração, foi paralisada pela atividade de uma camponesa alemã que preocupada com este assunto conseguiu num tribunal frear este projeto. E agora recentemente o projeto que mais que interessava o governo alemão, a usina de reprocessamento em Dorlive [asterisco indicando “especificar o nome correto da palavra”] foi freada por um ato político através de contestações. Também nos Estados Unidos, Japão, Canadá, França e até no Brasil estamos começando este tipo de luta, há poucas semanas atrás, em Brasília, na Câmara dos Deputados falando sobre o assunto o MDB demonstrou interesse e já combate o tratado Brasil-Alemanha.

A contestação da energia nuclear levou muita gente a pensar não só neste problema, mas também em todos seus incríveis perigos para as gerações atuais e futuras, era algo como nada mais nada menos do que a ponta de um iceberg, muito grande, onde partes estavam mais ou menos obscuras. Agora na Alemanha a política está entrando realmente entrando neste assunto, dúzias de deputados brigando contra uma outra forma de tecnologia. O exército alemão se vê na contingência, na obrigação de proteger computadores, porque senão o povo vai aos locais onde estes aparelhos se encontram e destroem-lhes, principalmente devido ao banco de dados, visto que isto representa uma nova forma de dominação em potencial da ditadura que nunca houve. Aqui no Brasil ninguém ainda se dá conta disso.


Outro problema é o imediatismo que a tecnologia impõe e com isto advém os inúmeros estragos ambientais.


Por exemplo quem está acabando com a Amazônia? É por acaso o caboclo amazonense? Não, o caboclo amazonense nestes últimos duzentos anos não conseguiu estragar quase nada, mas o Dr. Ludwig e/ou grandes firmas paulistas e gaúchas em poucos meses arrasam com centenas de milhares de metros quadrados, para fazerem coisas absurdas, aquela Hileia como uma biologia incrivelmente complexa que a vida nos seus 3,5 bilhões de anos de evolução orgânica conseguiu elaborar e destroem tudo isto para colocar boi num sistema de capim e talvez alguma leguminosa num esquema que em geral depois de 3 a 4 anos não produz mais nada, para produzir boi, num esquema de produção pecuária que nem merece ser chamado de pecuária, aquilo é um escândalo o que nós estamos produzindo naquela área é de 25 a 30 kg de carne/ha/ano, para se ter uma ideia do ridículo de tal produção, na Alemanha do Norte, numa área muito fria onde 4 meses do ano o boi tem que estar num estábulo aquecido e comendo feno e silagem feitas nos outros 8 meses, lá antes do adubo químico e da nossa exportação de soja eles conseguiam 600 kg/ha/ano e nunca apenas carne, pois além dos 600 kg/ha/ano se produzia mais de 3000 a 5000 litros de leite e nós aqui na Amazônia estamos derrubando floresta primordial com árvores de 40 metro de altura, uma das coisas mais majestosas que já existiu neste planeta, a última grande selva ainda intacta para fazer ridículos 25-30 kg/ha/ano, isto nem merece o nome de tecnologia, é obsceno. Só um pé de castanheira que derrubem fornece 500kg de castanhas, quando comparado com os ridículos 25 a 30 kg de carne.


A tecnocracia, os esquemas de poder, são sempre assim imediatistas e brutais, não querendo saber quais as consequências, então felizmente os perigos indescritíveis da energia nuclear levaram a que muita gente começasse a pensar onde surgiram os livros de “Shuremahan”, “Irlich”, de “Makuge” [asteriscos indicando “nomes a confirmar] (que é um pouco mais antigo) e agora o livro muito importante que saiu na Alemanha de “Klau Khuver”, um ex-tecnocrata que é tão importante para a época atual como foi o de Karl Marx no século passado o livro se chamaria “Os Limites Políticos da Tecnologia” onde vocês podem ver que a coisa é realmente interessante. Continuando com essa dogmática, coloco mais um ponto mais aparente, mas raramente é enunciado abertamente, serio o dogma da necessidade do “crescimento eterno”. A ele, quando dito, não é enunciado nestes termos, mas o administrador, o político, o tecnocrata e o economista sempre falam da necessidade de um crescimento econômico, sempre querendo um crescimento econômico. Se no PNB (Produto Nacional Bruto), medida padrão para se estimar o crescimento econômico, houver uma queda relativa de um ano para o outro já se fala em catástrofe, em recessão e mesmo havendo um crescimento absoluto neste PNB. Bem, quem conhece os aspectos mais rudimentares, sabe que isto é um absurdo, pois vivemos numa “nave espacial” limitada nos seus recursos e na sua extensão perdida numa imensidão de espaço vazio e até hoje não sabemos se existe no universo uma outra “joia” que nem é onde nós vivemos; partindo disto, questiona-se: como podemos querer crescimento eterno num ambiente limitado? Sabe-se que toda exponencial leva rapidamente a ordens de magnitudes astronômicas e por exemplo mesmo que algo cresça apenas 1% ao ano em 70 anos estará duplicada, se tiver mais 70 anos ela estará multiplicada por quatro, se tiver mais 70 anos estará multiplicada por oito e assim por diante. Ora numa “nave espacial” limitada não pode existir este tipo de coisa, mas, no entanto, todos os políticos, administradores, executivos, economistas e nestes últimos, principalmente aqueles que fornecem as bases teóricas para as decisões políticas para o desenvolvimento e todos alardeiam constantemente a necessidade do crescimento econômico, as palavras mais comuns no vocabulário político atual e em todos os países sejam eles capitalistas ou comunistas, por exemplo os americanos que têm uma economia que abarca, se não me engano, cerca de 30% da energia, 40 a 50% dos mineiras e pensam que têm que continuar crescendo e nós todos queremos chegar onde eles se encontram e eles não querem parar.


Bem, tudo isto é um absurdo, e, o que nós pudermos querer, isto é, se quisermos um futuro para nossos filhos é humildade, equilíbrio auto regulado e não crescimento eterno numa “nave espacial”.


O PNB norte-americano está em torno de 6500 a 7000 dólares/per capita/ano, o PNB alemão está com um pouco mais e o sueco um pouco mais ainda e nós estamos por volta de 1200 dólares/per capita/ano, portanto nós nos consideramos extremamente atrasados, tendo muito pela frente para chegar onde os norte-americanos estão, mas estes não querem parar nos 7000, eles querem chegar nos 25000 lá pelo ano 2010.


Bem, este dogma quem o analisar logo percebe o seu absurdo, mas no entanto é axioma para todo raciocínio desenvolvimentista de nossos governos. Mas o que é o PNB? O PNB é uma medida de fluxo de dinheiro dentro de uma economia, nada mais. Quanto mais se consumir, maior será o PNB, visto que o fluxo de dinheiro será maior. Portanto nos países com uma sociedade pouco consumidora e que possuem um baixo PNB são considerados “atrasados” como é o caso da Índia com aproximadamente 200 dólares/per capita/ano.


Daqui a cem anos não vamos ter mais nada (se é que dura tanto), mas o economista adiciona no PNB a soja que foi produzida naquele ano e que é uma riqueza nova com extração de um recurso que equivale a um capital irrecuperável e que não cresce. Na mesma situação está o petróleo pois no dia em que for gasta a “última gota” de petróleo está será a “última gota” mesmo. E nesta problemática toda, ainda não adicionados os custos e consideramos os custos como se ele fosse vantagem, por exemplo se aumentar os doentes do Brasil mais progresso os economistas vão ler em suas tabelas. O PNB é outro dogma, que eu chamaria de “Afixação Monetária”, pois nós medimos tudo em relação ao dinheiro e o economista, e quando eu digo economista estou me referindo ao pensamento econômico convencional que serve de base para as decisões governamentais, e é bom deixar claro que muitos economistas não pensam desta maneira. O economista usa como unidade de dinheiro, mas o dinheiro não é uma medida que se pode comparar com o metro que é uma abstração que não existe na natureza é uma abstração com uma base fixa. O dinheiro não é uma que pode ser ligada a uma realidade física, sendo uma “abstração” muito mais abstrato do que o metro, é uma abstração de uma abstração, ele é um contrato social, um contrato anônimo, divisível, adicional, subtrainel etc., um contrato que nem tamanho certo tem, e no caso do Brasil, como todo mundo sabe, nosso dinheiro é de borracha. Mas o economista trata o dinheiro como se fosse uma medida física e faz toda uma matemática elaborada em cima disto e depois se admira que as coisas nunca dão certo. O dinheiro, na verdade, não é uma unidade física e sim um contrato ético, moral, tendo muito a ver com o relacionamento humano, sendo inclusive uma coisa política. Nosso pensamento então é falho, pois nas coisas físicas nós conhecemos os limites, as coisas físicas são finitas, nem o universo é infinito. Se eu estou preocupado em me alimentar me basta somente um almoço. De nada me vale comer 30000 almoços, se eu quero dormir me basta uma cama, mas quando eu estou preocupado com número, então não existe limite. Podemos assim compreender muito dos aspectos da civilização atual que muito dizer materialista, do ponto de vista que eu não concordo, se nós fossemos uma civilização materialista, nós veneraríamos a matéria e quanto mais preciosa esta matéria mais nós saberíamos preservá-la, e jamais faríamos o que estamos fazendo na Amazônia. Os materialistas saberiam avaliar e usar os recursos de uma floresta. Se nós fôssemos realmente uma civilização materialista nós desejaríamos um mundo material racional, limpo, belo, harmonioso e sustentável e assim eu diria que nós não somos materialistas, nós somos sim “atracionistas”. Aí surgem pessoas como Daniel Ludwig, que provavelmente vá viver mais uns 4/5 anos, sem herdeiro, e que têm uma fortuna que ele conta em dúzias de bilhões de dólares, ele não pode nem contar o dinheiro dele, eu acho que ele não sabem nem quais os bancos onde estão seus bilhões, este homem está derrubando 700.000 ha de floresta para fazer mais dinheiro, mas ele não pode comer 50.000 almoços de uma vez, mas é que ele não está preocupado com isso, está preocupado com dinheiro que é uma abstração e a abstração não conhece limites e por causa de loucuras como essa que em função do dinheiro que o Nordeste é uma região triste, pobre, marginalizada e faminta. Porque o Nordeste é uma região triste, pobre marginalizada e faminta? Porque no Nordeste cada m² de solo fértil está dedicado à produção de dinheiro. Se ele estivesse sido dedicado à produção de comida nós teríamos no Nordeste uma situação bem diferente. As terras férteis do Nordeste são amplamente suficientes para alimentar pelo menos 3 vezes a população de 30 milhões que eles possuem atualmente. Mas então estaríamos fazendo uma coisa diferente, estaríamos fazendo ali uma agricultura camponesa, preservação do solo, de culturas diversificadas, rotação de cultivos e uma outra coisa que atualmente lá não existe também que seria uma linda, sustentável e humana estrutura social.


E o que está sendo feito atualmente na Amazônia? Que é dito como racional, mas na verdade trata-se de um insulto, visto que trata-se de um verdadeiro saque imperialista e endocolonial, e assim, quem está arrasando a Amazônia são os amazônidas? Ou são pessoas de fora? Que tendo dinheiro e querendo multiplicar seu dinheiro de maneira mais imediatista, rápida e mais fácil possível, derrubam tudo e não aproveitam nem 1% daquela coisa, mas que dentro do imenso contexto, das ordens de magnitude, eles tiram dinheiro que vai ser gasto em outro lugar e aos habitantes da Amazônia só vai sobrar a devastação, o desiquilíbrio hídrico, o desiquilíbrio climático, a marginalização e depois o deserto. E, tudo isto se faz, em nome do progresso, e, pudemos ver que de racional esta civilização em que vivemos hoje não temos nada. Talvez até se possa dizer que a civilização atual é a primeira das grandes civilizações que não tem sabedoria. O índio que anda nu na floresta, ele pode não saber ler nem escrever, ele não sabe o que é um parafuso, um canivete, mas ele é um homem muito sábio, ele soube viver 30.000 anos naquela forma de estado natural sem destruí-la, 100% integrado à natureza, sentindo-a e venerando-a e ele poderia continuar um milhão de anos naquela forma de viver, nós chegamos e entramos com correntão, com herbicidas, com máquinas pesadas e aquilo que o índio durante anos conservou e venerou, desaparece em poucos meses e ainda adiante para destruir mais e ainda achamos que somos civilizados.


Dentro da abstração, da fixação monetária, nós perdemos de vista o verdadeiro valor das coisas, pois se a preocupação é única e exclusiva com dinheiro, onde os reais valores da vida são esquecidos, para dar um exemplo, anos atrás em Laguna, Santa Catarina, discutindo contra a tecnocracia que queria dessanilizar 3 grandes lagoas muito bonitas e que são ainda um grande viveiro de camarões, expôs-se que essa dessalinização causaria o desaparecimento dos camarões e que aproximadamente 20 a 30 mil pessoas sofreriam com isto; como ressalva para esta situação o tecnocrata respondeu: “Nós vamos dar emprego para muita gente, vai correr dinheiro e poder-se-á comprar camarão” e isto foi dito honestamente, pois certamente na cabeça dos tecnocratas o dinheiro faz tudo, sendo que eles esquecem que o dia que matarmos o último camarão não vai ter dinheiro que compre camarão. Nós esquecemos que dinheiro é apenas um contrato, é apenas uma das regras do jogo, da divisão, da distribuição entre humanos dos espólios do massacre da natureza. Nós temos que inverter as coisas, o dinheiro deve ser apenas um símbolo, mas as coisas que realmente nos devem interessar são as coisas em si, aí nós vamos pensar de maneira bem diferente. Assim, uma vez que o dinheiro passou a ser a medida de todas as coisas, o pensamento econômico convencional - se bem que na verdade temos ainda raras e felizes exceções-, uma vez que nós só levamos em conta o dinheiro o nosso pensamento econômico convencional deixa de lado tudo aquilo que não dá para medir em dinheiro não interessa aos nosso políticos administradores, por exemplo, já foi visto um economista falar de amor, de amizade, de beleza, de harmonia, de injustiça, saúde de sustentabilidade?


E agora, chegando mais próximo da tecnologia, uma vez que nós medimos tudo em termos de dinheiro nós medimos a eficiência de uma máquina, de um processo, de um método em termos de lucros, a máquina é mais interessante se ela movimenta mais dinheiro na direção daquele que é o dono ou que maneja ou dirige aquela máquina, tanto capitalista quanto comunista. Marx também incorreu no mesmo erra na sua crítica ao capitalismo, ele considerava como fatores de produção apenas o capital e a mão-de-obra, ele não levou em conta os recursos. E hoje quando queremos saber a produção de uma máquina temos que saber seu custo, quanto capital é necessário para movimento e quanta mão-de-obra é necessária, sem se preocupar com o ferro, o sore, o petróleo, ou seja, recursos em geral que ela usa, o que ela estraga na natureza. Aqui sobrevive uma grande mentira da tecnocracia que é a de justificar a devastação da natureza para possibilitar empregos, mas isto pode ser refutado pois a tecnocracia troca uma tecnologia que usa mão-de-obra por uma automatizada que elimina o homem do processo de produção, fazendo com que o ferro substitua a mão humana. Mas será que isto é progresso mesmo? Eu pergunto usando a palavra progresso no sentido que ela deveria ter, no sentido do aumento da média de felicidade humana. Ocorre hoje em dia que a felicidade física somente para o patrão e a infelicidade para o resto, a causa disto é esta tecnologia cada vez mais economizadora de mão-de-obra. O que vem acontecendo nos campos hoje em dia? Porque é que as cidades estão cada vez mais com problemas irresolúveis? São Paulo apresenta no ABC 100% das crianças com problemas pulmonares. E porque está acontecendo isto? Porque estamos marginalizando o homem do campo com a tecnologia moderna, onde chega o trator pesado, o adubo químico, o pesticida e a colheitadeira, o pequeno produtor não tem vez e assim vai para a cidade sem condições de crédito para comprar a maquinaria moderna. E hoje essa gente está nas favelas das grandes cidades se transformando em mão-de-obra barata para o mesmo esquema tecnocrático que a marginalização fechando dessa forma o ciclo.


A agricultura empresarial moderna com sua tecnologia, está envenenando e destruindo o ambiente, está marginalizando toda a cultura camponesa ainda sã, que acumulou conhecimentos sobre práticas agronômicas por milênios. Portanto a justiça social e a defesa ambiental são duas fazes da mesma moeda. O tecnocrata está destruindo o planeta e não pode acusar o ecólogo de que este seja contra o progresso. O ecólogo é contra o progresso nas definições atuais e não contra o progresso no verdadeiro sentido que ele deveria ter.


Outro dogma que pode se levantar é de que o preço justo de uma mercadoria dentro de um sociedade é conferido pelo mercado, ou seja, o mercado seria um sistema cibernético de chegar a preços socialmente justos. O preço é algo abstrato, nada tendo a ver com o valor intrínseco, para uma pessoa no deserto de Saara com sede, um copo de água vale como ouro. Então, se diz que o mercado estabelece um equilíbrio entre demanda e oferta, mas até quando este valor justifica realmente? Para justificar o preço teria que ser completo e completo eu entendo, que deveria aparecer toda oferta da sociedade de um lado e do outro toda a procura, mas isso não acontece. Citando o exemplo de um economista da linha ecológica .........*.......; imaginemos num leilão do quadro da “Monalisa”, se a maioria das pessoas presentes no leilão não soubessem que aquele quadro é uma obra de arte, e somente uma pessoa soubesse do valor do quadro, este compraria o mesmo por uma ninharia.


Os nossos mercados são todos deste tipo, nós não temos mercados completos e sempre tem o “conhecedor de arte” que conhece o verdadeiro valor daquilo que é comercializado, aproveitando da ignorância dos demais. Os nossos mercados são ausentes e perenes onde as gerações futuras não estão presentes, pois se estas participassem dos atuais mercados os acontecimentos seriam um pouco diferente. Jamais estaríamos envenenando o planeta com pesticidas com radiação ionizantes, destruindo a Amazônia, estaríamos sim “consertando o que já destruímos”.


Passando então para um outro aspecto desta questão. Até aqui procurei analisar a ideologia da sustentação desta tecnocracia atual, deixando bem claro que eu não estou querendo afirmar que a tecnocracia seja uma conspiração sinistra que está fazendo tudo isso propositadamente, que inventou estes dogmas para nos dominar e liquidar. A maior parte destas estruturas e desta dogmática seguiu assim, por acaso mas uma vez presentes, existem aqueles que tiram dela proveito, e que se dão conta que estão tirando proveito e vão fazer o que podem para manter isso. Isto também acontece em relação ao PNB. O dogma de que o “bolo” sempre irá aumentar, serve para manter calado aquele que com a menor fatia. Mas, na verdade, o que está acontecendo é que o bolo ao invés de aumentar está é diminuindo. No entanto se o dono da fatia pequena percebesse esse fato, ele perguntaria ao dono da fatia grande o “porque desta diferença”.


Os grandes donos não vão mais poder escapar à justiça social, tendo que aceitar a redistribuição.


Mas enquanto for patente a aceitação de que o “bolo” está aumentando será bem fácil manter a fatia pequena mais ou menos satisfeito. E isto ainda bem baseado numa grande estrutura burocrática, tanto no capitalismo quando no comunismo, sem diferenças. Todos querem, como conclusão, continuar crescendo e crescendo e crescendo baseados na utilização de grandes máquinas que usem o quanto menos mão-de-obra possível melhor.


É bom salientar que os tecnocratas são pessoas de consciência muito tranquila, pois eles acreditam que realmente aquilo eles fazem estão certo e, eu tenho certeza que eles dormem muito bem, achando que ao derrubar a Floresta Amazônica se está fazendo Progresso a selva inóspita.


Por que hoje se predomina fazer Usinas Nucleares? Com todos os incríveis perigos que elas representam, porque é que as alternativas de energia não são usadas, como a Biomassa, nos pequenos desníveis hídricos, nos ventos, nos mares, etc., aliás é nos pequenos desníveis hídricos que podemos retirar os maiores potenciais energéticos, mas a tecnocracia exige locais grandes, como Itaipu, Tucurui e as milhares de pequenas quadras onde podemos extrair em esquemas descentralizados um potencial energético muito maior, isto não interessa. A Usina Nuclear é um objeto que custa de 1 a 2 bilhões de dólares e qual é o tecnocrata que não dá saltos de alegria se ele pode controlar uma coisa dessa. Bilhões de dólares. Aliás, conforme foi fartamente noticiado, nas construções de nossas usinas desapareceu a quantia de 290 milhões de dólares e que ninguém sabe para onde foi. Agora, porque desapareceram os cata-ventos se até o século passado funcionavam muito bem tanto na Holanda, quanto na China ou na Grécia, usando como matéria-prima madeira e pano, sem nenhum conhecimento de aerodinâmica, os Holandeses movimentavam milhões de metros cúbicos de água à custa desta tecnologia e outras, e porque atualmente nós que conhecemos material e técnica, coisas que ele nem poderiam suspeitar que existisse.


*Artigo publicado no jornal Jornal Opinião Jovem, 31 de outubro de 1977., reprodução do APJL.

Texto transcrito por Sara Rocha Fritz.

Postado por Débora Nunes de Sá.

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