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Rio-92: uma nova ética ecológica para a Terra

[...] a maior parte da pobreza que vemos hoje no mundo é resultado da destruição de culturas tradicionais, do estupro de seus recursos em nome do “progresso”, do desenraizamento de pessoas que são então deixadas sem escolha a não ser encher as favelas purulentas ou estuprar o que ainda resta de região selvagem.


Texto do Discurso à PREPCOM I - Reunião do Comitê Preparatório da Conferência da ONU, em Nairóbi.


José Lutzenberger (1990)



Fonte: https://www.ecodebate.com.br/2012/08/28/o-desenvolvimento-sustentavel-a-etica-e-o-meio-ambiente-artigo-de-roberto-naime/.
Fonte: https://www.ecodebate.com.br/2012/08/28/o-desenvolvimento-sustentavel-a-etica-e-o-meio-ambiente-artigo-de-roberto-naime/.

Como reverter o atual curso suicida da Moderna Sociedade Industrial, como abandonar nossas formas predatórias de desenvolvimento em favor de um desenvolvimento que pode ser sustentado, que coloca nossa espécie novamente em harmonia com o resto da Criação.


Considerando a esmagadora importância dessa reunião, devemos certificar-nos que as discussões sejam realmente relevantes, que elas levem a decisões que realmente importam, que o resultado seja uma mudança de rumo.


Isso significa que precisamos de uma reavaliação não apenas das nossas ações mas das nossas motivações.


A atitude predominante hoje, quando a nossa situação ambiental é discutida, é a de que os problemas que enfrentamos são resultado sobretudo de pequenos ou grandes descarrilamentos do “desenvolvimento”, que podemos resolver nossos problemas com remendos técnicos, tais como reduzindo emissões, adaptando mais filtros para nossas chaminés, catalisadores para os canos de escape dos nossos carros, controlando a poluição industrial e agrícola ou urbana, deixando as reservas naturais para a preservação da biodiversidade, mais reflorestamento, etc... Mas isso não é o bastante. Existe até uma insistência muito comum de que precisamos de mais “desenvolvimento” para nos dar os meios de lidar com os problemas que o desenvolvimento está causando. Mas, isso é o mesmo que prescrever mais do remédio que está na raiz de uma doença iatrogênica.


Durante a Sessão da Comissão Preparatória eu ouvi um dos delegados repetir um dogma comum das nossas políticas de desenvolvimento, isto é, que a pobreza está na raiz da maior parte da degradação ambiental que temos hoje. Mas é o contrário disso, a maior parte da pobreza que vemos hoje no mundo é resultado da destruição de culturas tradicionais, do estupro de seus recursos em nome do “progresso”, do desenraizamento de pessoas que são então deixadas sem escolha a não ser encher as favelas purulentas ou estuprar o que ainda resta de região selvagem.


É verdade que nunca na história da humanidade tantas pessoas viveram tão bem, também é verdade que nunca antes no passado tivemos tantas pessoas vivendo em extrema miséria e desespero como hoje, e na maior parte do mundo a situação está piorando em termos absolutos e relativos.


Mas simplesmente elevar toda a Humanidade ao nível de consumo material e de energia que hoje caracterizamos como de Primeiro Mundo é impossível, seria suicida. Até dois chefes de Estado, Gorbachev e Collor, já se atreveram a dizer isso abertamente. É simplesmente impossível para 5.5 e depois 6, 8 ou 10 bilhões de pessoas consumirem recursos no ritmo que os Americanos e Europeus estão consumindo hoje. Um mundo com 3 bilhões de carros particulares ou mais é impensável, assim como um mundo com milhares de enormes complexos químicos e milhares de estações de energia nuclear ou de carvão. Então devemos pensar em outra coisa.


A superpopulação e a explosão populacional são também frequentemente culpadas se não como as únicas, pelo menos como as principais causas das nossas dificuldades ambientais. Mas todo cidadão americano, holandês ou alemão é responsável por muitas vezes o impacto ambiental da maioria da população indiana ou africana. Então, claro, devemos encontrar meios de estabilizar nossas populações, mas não faz sentido pensar que a Holanda ou a Alemanha não são superpovoadas enquanto alguns países africanos são. A sustentabilidade indefinida para uma certa população tem a ver não apenas com números, mas também e principalmente com o nosso estilo de vida e nossos modos de interagir com o mundo. Por que então, o atual desenvolvimento é tão devastador para a criação?


Fundamentalmente é a nossa visão de mundo. O nosso passado judaico-cristão remoto nos deu uma visão de mundo antropocêntrica. Consideramos a nós mesmos como a única espécie que tem direitos. Nossa ética é portanto truncada, limitada. Vemos toda criatura e elemento não humano como fora de nossa ética. Podemos nos levar ao reconhecimento que a devastação de certas áreas selvagens é um erro, mas um erro apenas na medida em que estamos prejudicando a nós mesmo ao desperdiçar recursos futuros. Não vemos isso como um pecado! A maioria das culturas que desprezamos como “atrasadas” vêem dessa maneira.


Para a Moderna Sociedade Industrial o Planeta é apenas um repositório de recursos, recursos que estão lá para serem tomados, que podemos usar ou abusar, que podemos desperdiçar não apenas para as nossas necessidades, mas para os nossos caprichos mais desnecessários e até mesmo absurdos.

Essa visão levou economistas, tecnocratas e administradores públicos modernos a basear suas ações e políticas em modelos econômicos que são totalmente desanexados da Natureza, modelos que de alguma forma flutuam num nível transcendental. Eles parecem pensar em termos de um fluxo unidirecional entre dois infinitos. Recursos infinitos de uma lado e um buraco infinito do outro para despejar nossos resíduos. É claro, eles sabem que recursos materiais não são infinitos, que o petróleo, minérios metálicos e outros vão eventualmente acabar. Mas, eles postulam substituições subsequentes e intermináveis. Ultimamente muita conversa fiada está sendo feita sobre a necessidade da reciclagem, mas mais como um meio de resolver os problemas de manuseio de resíduos do que para a preservação dos recursos.


Não há razão para que um fluxo entre dois infinitos não possa crescer em espessura para sempre. Então, a maioria dos economistas modernos não vêem nada de errado postulando a necessidade do crescimento exponencial contínuo das economias nacionais. Quando eles olham para os aspectos da distribuição injusta, eles preferem prever que um bolo sempre crescente vai eventualmente dar aos desprivilegiados uma fatia suficientemente grande. Um corolário deste postulado é que a crescente prosperidade vai também resolver o problema do crescimento populacional.


Não apenas o crescimento sem fim é visto como uma necessidade, o crescimento é também medido de maneira que, novamente, tem pouco a ver com as realidades sociais e ambientais. “Produto Nacional Bruto” (PNB) apenas acrescenta fluxo de dinheiro. Sob a falsa suposição de que o que importa é a renda das pessoas, essa vara de medição deixa totalmente de fora considerações a respeito de como essa renda é alcançada. Então quando um país destrói montanhas, arrasa florestas, extermina espécies para ganhar moedas estrangeiras na exportação, apenas o rendimento é contado no PNB, em nenhum lugar da contabilidade nacional está considerada a perda das florestas e o esgotamento das minas. Quando a destruição da floresta interrompe ou extingue culturas inteiras ou resulta em genocídio para a população indígena, essas perdas irreversíveis também não são descontadas. Mesmos custos são adicionados como se fossem progresso. Custos de controle da poluição e custos médicos onde a saúde da população deteriora-se são também adicionado ao PNB, sem nenhuma dedução, e também são os custos de acidentes... Esquecemos que também somos mais ricos quando precisamos de menos coisas e menos dinheiro. Um país tropical é mais pobre porque seu PNB não contêm os altos custos de calefação que o PNB da Escandinávia reflete?


O postulado da necessidade de crescimento continuo em termos de PNB colocou um feedback positivo em nossas economias. Feedback positivo é o tipo de comportamento que vemos em uma bola de neve. A bola de neve não pode ser parada se for dado mais neve e mais inclinação, o desastre final vai ser apenas pior. Então, mais crescimento do tipo que temos atualmente vai apenas nos levar a um colapso mais doloroso.


Se queremos um desenvolvimento realmente sustentável, o crescimento precisa ser mais qualitativo que quantitativo, em muitos casos deve haver uma redução na quantidade. Devemos encontrar maneiras de colocar nossas economias em uma situação de estado estacionário. Isso não precisa ser estagnação, pode ser muito ativo e dinâmico, mas precisa ser estável, balanceado e autorregulado, assim como são todos os sistemas naturais, especialmente os sistemas vivos. Se a Vida em seus três bilhões e meio de anos de existência nesse planeta tivesse agido da forma que a Moderna Sociedade Industrial age, ela teria desaparecido antes que os seres vivos tivessem atingido o nível de complexidade de uma bactéria.


Nossa visão de mundo antropocêntrica também nos faz olhar para as forças de mercado de uma perspectiva muito limitada. Suponha que uma obra de arte valiosa está sendo leiloada, mas apenas pessoas ignorantes sem conhecimento de arte estão fazendo lances, ou que o leiloeiro não tem ideia da preciosidade da obra, ela vai ser vendida por um preço ridiculamente baixo. Esse é o caso da maioria dos nossos mercados reais hoje. Eles nunca estão completos. As gerações futuras não podem fazer lances e esse é também o caso com o resto da Criação. Um criador de gado na floresta tropical vê um valor negativo na floresta que ele limpa para fazer pastagem. Ele gasta dinheiro para se livrar dela. E existe um vasto segmento da humanidade que está ausente dos nossos mercados. Milhões de pessoas têm necessidades mas não têm dinheiro para satisfazê-las. O mercado apenas vê a demanda expressa em dinheiro. Devemos encontrar maneiras de tornar nossos mercados responsivos de uma maneira mais holística.


Mas as mudanças necessárias vão acontecer apenas quando recuperarmos o respeito pela Criação, isso é a reverência pela Vida em todas as suas formas e manifestações, quando aprendermos a olhar para o Planeta Terra novamente do modo que a maioria das populações chamadas “primitivas” viam ele, como uma entidade viva.

Hoje a ciência dura e disciplinada nos dá uma nova figura do mundo. Quando olhamos a bio-geo-fisiologia do nosso Planeta, em contraste com o equilíbrio químico final de outros planetas que conhecemos, planetas que estão todos mortos, ou muito quentes ou muito frios e totalmente estéreis, então percebemos que esse Planeta é vivo, que é um sistema vivo. Mesmo a metáfora comum da Terra como uma nave espacial é insustentável. Uma nave tem passageiros, mas no meu organismo, meu coração, rim ou fígado não são meus passageiros e eles não podem lutar uns contra os outros.


Devemos reaprender que nós humanos somos apenas parte de um todo maior e que devemos aprender a nos comportarmos de maneiras que melhoram a vida, não que consomem a vida, que reconstroem e permitem a recuperação das harmonias perdidas. Todo ecossistema é a resposta ideal da Natureza em termos de alcançar o máximo de vida sustentável para as condições prevalecentes localmente. Então, existe apenas um sistema natural que não pode ser sacrificado sem comprometer para sempre a produtividade futura em termos de suporte de vida. De que serve uma alta população hoje com altos níveis de consumo, se isso significa um colapso devastador para nossos filhos e netos?


Nesse contexto, devemos ainda olhar mais de perto as nossas tecnologias e o modo como as usamos.


A maior parte do que é apresentado hoje como progresso técnico é tecnologia dura, tecnologia concebida pelos poderosos para seus interesses, para ajudá-los a concentrar ainda mais poder, não tecnologia branda que é uma tecnologia concebida para satisfazer as verdadeiras necessidades humanas em harmonia com a Natureza. Isso significa que precisamos de uma crítica política da tecnologia, o que dificilmente está acontecendo hoje.

Progresso e desenvolvimento devem ser redefinidos, nossas tecnologias reavaliadas e reajustadas, nossa agricultura deve desenvolver formas que são verdadeiramente regenerativas e que melhorem a vida. Atualmente a agricultura é mais como mineração. Então, 1992 deve ser um fórum para um profundo questionamento dos nossos modos atuais e deve produzir um projeto prático para a sobrevivência. Pode ser a nossa última chance.

Discurso à Reunião do Comitê Preparatório da Conferência de 1992. Secretário Especial do Meio Ambiente do Brasil, José Lutzenberger. Nairobi, 29 de agosto de 1990., reprodução do APJL.


Texto traduzido e transcrito por Sara Rocha Fritz.

Postado por Débora Nunes de Sá.




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